O Programa Prevenção em Ação é uma ação do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp para reduzir as principais infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS) nas Unidades de Terapia Intensiva adulto e pediátrica, fortalecendo ações multiprofissionais. O programa teve início em maio de 2024 após a participação do hospital no projeto Saúde em Nossas Mãos, uma iniciativa colaborativa para apoiar hospitais e profissionais de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS) na prevenção de infecções hospitalares, desenvolvido pelo Ministério da Saúde durante o triênio de 2021 a 2023.
Após a participação do HC da Unicamp com 17 leitos de UTI no programa Saúde em Nossas Mãos, houve uma redução de 78% de infecção primária de corrente sanguínea (IPCSL), 56% de infecção do trato urinário (ITU) e aumento de 12% na taxa de adesão de higiene das mãos. “Por meio desse projeto, o hospital conquistou o segundo lugar no prêmio PAEPE de 2023, como o melhor da Unicamp. Daí nasceu a iniciativa de expandir essa estratégia para todos os 76 leitos de UTI adulto e 20 leitos da UTI pediátrica”, diz a enfermeira Luciana Aparecida Costa Carvalho, gestora multiprofissional do programa Prevenção em Ação.
O programa utiliza a metodologia aplicada pelo Institute for Healthcare Improvement (IHI), a qual é fundamentada na ciência da melhoria, que enfatiza inovação prática, ciclos de aprendizagem rápidos e disseminação de aprendizados para gerar melhorias eficazes. Neste um ano e dez meses do programa foram desenvolvidas ações diretas que envolvem a prevenção de IPCSL, ITU e adesão à higiene das mãos. Até o momento, uma média de 722 profissionais foram atingidos direta ou indiretamente pelas ações desenvolvidas.

Como estratégia de desenvolvimento profissional foi utilizado a metodologia da mudança, que foca na dimensão humana das iniciativas de melhoria, mostrando como engajar, motivar e sustentar mudanças por meio da participação ativa das pessoas. A estrutura é composta por cinco domínios inter-relacionados, para promover transformações duradouras. São eles: liberar a motivação intrínseca; co-design de mudanças orientadas por pessoas; co-produção em relacionamento autêntico; distribuir poder e adaptar em ação.
Além das estratégias de desenvolvimento e capacitação da equipe multiprofissional, foram realizadas auditorias periódicas, elaboração de indicadores, análise dos resultados e divulgação junto aos gestores e às equipes assistenciais. O gerenciamento é conduzido exclusivamente por Luciana, que faz à gestão do programa e tem o papel fundamental no desenvolvimento multiprofissional de 100 profissionais assistenciais, que são referência nas ações de prevenção de IRAS. Um grupo gestor multiprofissional que se reúne, mensalmente, para planejamento e discussão de resultados com o apoio direto da Superintendência e Departamento de Enfermagem.
De acordo com Luciana, antes do programa não havia o indicador de taxa de adesão de higiene das mãos, com a ação foi possível elaborar o indicador e determinar metas de melhoria para as unidades. Após a implantação do programa ocorreu um aumento em 13% da taxa de adesão de higiene das mãos considerando-se todas as unidades de UTIs do hospital. Este resultado reflete, diretamente, no indicador de IRAS das unidades.

“Quando analisamos os resultados de um ano do programa com base no número de infecções evitadas, vemos que ocorreu a prevenção de 18 infecções primárias de corrente sanguínea (IPCSL), 53 infecções do trato urinário associadas a cateter (ITU-AC) e foram evitados R$ 2,3 milhões em gastos no tratamento dessas infecções. Quanto à redução do uso de dispositivos invasivos, obtivemos 21% menos pacientes em uso ventiladores mecânicos, 7% menos pacientes com cateteres centrais e 5% menos pacientes com cateteres vesicais”,ressalta Luciana.
O projeto de prevenção de infecções em UTI está alinhado à visão institucional do hospital e contribui para a melhoria da segurança do paciente, redução da morbimortalidade e fortalecimento das práticas assistenciais baseadas em evidências, promovendo impacto positivo tanto na instituição quanto no ensino e pesquisa da universidade. O Programa Prevenção em Ação venceu, em 2025, também o prêmio PAEPE como um dos seis melhores projetos inscritos na área da enfermagem da Unicamp.

IRAS
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 1 em cada 10 pacientes apresente infecção relacionada à assistência à saúde (IRAS), com maior incidência em países de baixa e média renda e em pacientes de alto risco, como aqueles internados em unidade de terapia intensiva. No Brasil, o Ministério da Saúde estima que até 14% das internações apresentem esse evento, ultrapassando o limite de 5% recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
As IRAS causam mais de 45 mil mortes anuais, sendo que até 70% poderiam ser evitadas. Essas infecções aumentam a mortalidade, as reinternações e prolongam o tempo médio de internação em 6,5 dias, gerando impacto econômico significativo — em UTIs pediátricas, o custo é 4,2 vezes maior e a internação, três vezes mais longa, enquanto, em adultos com sepse, o custo médio atinge US$ 9.632 por paciente.
A literatura científica evidencia que a implementação coordenada de estratégias voltadas ao desenvolvimento contínuo dos profissionais contribui significativamente para a redução das IRAS, diminuição da mortalidade hospitalar e a geração de economia substancial aos sistemas de saúde, demonstrando o alto custo-benefício e a sustentabilidade das intervenções estruturadas no controle de infecções.

