O Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp celebrou na quinta-feira (17/9) o marco de 10.204 transplantes de órgãos e tecidos realizados desde 1984. Até o final de 2025, o HC havia realizado 3.704 transplantes de rins. Em seguida foram os transplantes de córneas (3.323), de medula óssea (1.822), de fígado (1.242) e de coração (113). Os transplantes de ossos e cartilagens começaram há dois anos. Dos dez tipos de órgãos e tecidos que podem ser transplantados, o HC não realiza os de intestino, de válvulas cardíacas, de pele e de pulmões.
O superintendente do HC da Unicamp, Maurício Etchebehere, exaltou e agradeceu o esforço de toda a comunidade do HC, das administrações anteriores e da Organização de Procura de Órgãos (OPO) que ajudaram ao hospital a atingir esse marco histórico de transplantes.
“Hoje fazemos transplantes de rim, coração, córnea, fígado, medula e de ossos – já fizemos 52 transplantes de ossos e tendões –, mas precisamos começar a fazer transplante de intestino, pulmão e cartilagem. Essa cerimônia simboliza todo o passado no atendimento desses pacientes, mas temos vocação para fazer muito mais”, destacou Etchebehere.

O HC da Unicamp está entre os hospitais que mais realizam transplantes no país. É um dos 10 no estado de São Paulo e o que mais realiza procedimentos no interior. O Estado de São Paulo é responsável por aproximadamente 45% de todos os transplantes realizados no país.
Nestes 42 anos de atividades, 2017 foi o ano com o maior número de transplantes de órgãos realizados no HC da Unicamp: 485 transplantes. Em 2019, o hospital teve a segunda marca histórica com 395 procedimentos realizados no ano.
Em 2023, o HC recebeu a certificação Nível A através da avaliação de indicadores do Programa de Qualidade no Processo de Doação e Transplantes (Qualidot) do Ministério da Saúde, conquistada pelo serviço de Transplante Renal.
“O HC faz transplantes 100% SUS. A complexidade do transplante é tão alta que você trabalha com 16 especialidades diretamente, mas com 38 subespecialidades indiretamente. Um hospital como o HC, que faz transplante de vários órgãos, ele oferece para a população uma complexidade alta com bons resultados”, lembrou a médica cirurgiã e transplantadora de fígado, Ilka Boin.

A trajetória dessas quatro décadas de atividades possibilitou a formação de inúmeros médicos transplantadores que atuam por todo País, a publicação de muitas pesquisas, teses e consultoria para credenciamento de outros serviços no Brasil.
O diretor da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, Erich de Paula, ressaltou que o hospital e a faculdade são reconhecidos pela qualidade acadêmica, científica e assistencial e que o pioneirismo na área de transplante precisa continuar. “Está no DNA das pessoas. A nova geração tem o desafio de superar os 10 mil transplantes”, disse Erick.
O médico Luiz Carlos Zeferino, diretor da Diretoria Executiva da Área da Saúde (DEAS) disse que é sempre necessário ousar na área da saúde. “Queremos contribuir para que o hospital atinja a marca de 15 a 20 mil transplantes”, desejou Zeferino.
O coordenador da Central Estadual de Transplantes de São Paulo, Francisco de Assis Salomão Monteiro, disse que a Unicamp é uma instituição que não se preocupa só com a qualidade de vida do paciente, mas que se preocupa com a formação de futuros profissionais para dar continuidade ao que esses desbravadores do transplante fizeram.

“Graças aos esforços da Unicamp, a cirurgia de transplante começa muito antes, com a doação e captação de órgãos para a fila de transplantes de São Paulo. Fazer um transplante é a oportunidade de continuar vivendo”, comentou Francisco.
Claudia Morelli, pró-reitora de pós-graduação da Unicamp, representando o reitor em exercício Fernando Antonio Santos Coelho, reconheceu toda a parte técnica e solidariedade que existe na captação e no transplante de órgãos. De forma sensível, Morelli deu um depoimento de quem olha todo esse trabalho do lado de quem está na fila esperando um transplante. Ela relatou o caso da sobrinha que, aos oito anos de idade, precisou fazer um transplante de rim e ficou por quatro anos fazendo hemodiálise.
“Hoje, ela é uma jovem que vai prestar o vestibular e está cheia de planos, pensando no futuro. Além da minha posição como integrante dessa Universidade eu trago minha gratidão como pessoa a todos os profissionais desse hospital, que também é a minha casa”, finalizou Cláudia, emocionando a todos os presentes.
Transplante renal
Os médicos da Unicamp foram responsáveis pelo primeiro transplante de rins no interior do Estado, realizado na Santa Casa de Misericórdia de Campinas, um ano antes da transferência dos serviços para as atuais instalações do hospital no campus. O médico urologista Ubirajara Ferreira contou um pouco da história do início dos transplantes no HC da Unicamp. “No final de década de 1980, não sabíamos como seria o pós-operatório dos pacientes. Houve percalsos. Estamos hoje festejando a qualidade do que tem sido feito nesses anos com objetivo de melhorar a qualidade de vida do paciente”, ressumiu Ubirajara.

O transplante de número 10 mil foi de rins. A paciente A S, de 67 anos, foi homenageada durante o evento, representando todos os pacientes transplantados. Ela estava em diálise desde 2023, devido uma nefropatia por imunoglobolina A (IgA).
Setembro Verde
Setembro é o mês dedicado à conscientização sobre a doação de órgãos. Entre os órgãos que podem ser doados, o coração e o pulmão são os que possuem o menor tempo de preservação extra-corpórea: de 4 a 6 horas. Fígado e pâncreas vêm em seguida com tempo máximo para transplante de 12 a 24 horas e os rins podem levar até 48 horas para serem transplantados. Já as córneas podem permanecer em boas condições por até sete dias e os ossos até cinco anos.

Prêmio Destaque em Doação de Órgãos
Desde a criação pela Secretaria de Estado da Saúde do Prêmio Destaque em Doação de Órgãos, em 2008, o HC da Unicamp sempre esteve entre os primeiros no interior do Estado. Na primeira edição, o HC da Unicamp se sobressaiu como uma das unidades recordistas em números de transplantes de órgãos – categoria rim -, ficando com a terceira colocação no geral e a primeira no interior. As equipes transplantadoras sempre foram vencedoras em todas as edições do prêmio.
OPO
O processo de captação de órgãos se inicia no instante em que a Organização de Procura de Órgãos (OPO) é notificada do diagnóstico de morte encefálica em determinado paciente. Com isso, a equipe se mobiliza para o contato com a família e cuidado com o doador.
Efetivada a autorização, são realizados os exames para constatação do doador viável e o hospital comunica a central de transplantes em São Paulo, que conta com apoio dos grupamentos aéreos Águia (Polícia Civil) e Pelicano (Polícia Militar), além do grupamento de polícia rodoviária estadual para transportar as equipes médicas e os órgãos.
Nem sempre os órgãos de um mesmo paciente são destinados para a OPO Unicamp quando a equipe vai para a captação. O mais comum é que, por exemplo, em um caso de morte encefálica a OPO Unicamp fica responsável pelo rim e fígado, enquanto que outra OPO assume os demais órgãos e tecidos. A ordem da distribuição é estabelecida de acordo com a lista única do Estado, com a compatibilidade genética dos órgãos e a isquemia – o período crítico em que o órgão fica fora do corpo humano, desde a retirada do doador até o implante no receptor.










