Estudo constata relação entre drogas e ocorrências violentas

(06/08/2015) Tese de doutorado desenvolvida pela psiquiatra Karina Diniz Oliveira, da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, analisou o perfil sociodemográfico e o padrão de uso de substâncias psicoativas (SPA) – álcool, cocaína, maconha e crack – em pacientes vítimas de traumas de violência – espancamento, ferimentos por arma branca ou de fogo – e acidentes de trânsito em Campinas. A pesquisa associou ainda as substâncias psicoativas usadas pelos pacientes com a gravidade e o mecanismo de trauma.

A pesquisa foi realizada entre novembro de 2012 e setembro de 2013, com 453 pacientes maiores de 18 anos, atendidos na Unidade de Emergência Referenciada (UER) do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp. O estudo contou com a participação de alunos de medicina e enfermagem por meio do programa PET-Saúde. Os estudantes foram devidamente treinados e orientados para o atendimento e coleta de dados. Participaram também investigadores do Centro de Controle de Intoxicações (CCI).

A tese, recém-defendida no programa de pós-graduação em saúde mental da FCM, foi orientada pela psiquiatra e professora Renata Cruz Soares de Azevedo.

De acordo com Karina, a pesquisa tem duas frentes: a primeira é ensinar o aluno a lidar com dependentes químicos, sem fantasias, e a segunda é entender as correlações entre trauma e o uso de álcool, cocaína, maconha e crack.

“A dependência química aparece em pacientes de diversas especialidades. É importante que o médico esteja preparado para perguntar sobre uso de drogas sem medo de achar que vai ofender o paciente”, disse a psiquiatra.

Os pacientes foram orientados sobre os objetivos da pesquisa e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Informado ao Paciente (TCLIP) para participar do estudo. Após aceitação e assinatura do termo, foi aplicada uma entrevista na qual foram coletados os dados sociodemográficos, antecedentes e mecanismo do trauma e uso de substâncias psicoativas (SPA).

Aos que preencheram critérios para abuso e dependência de SPA, os avaliadores aplicaram uma breve intervenção, com entrevista motivacional. Em seguida, quando possível, foi tentada a coleta de amostras de urina para avaliação da presença de cocaína, crack, cocaetileno (substância derivada da associação entre álcool e cocaína) e canabinóides (derivado da maconha).

A dosagem de álcool foi feita em amostras de urina colhidas e analisadas no Laboratório de Patologia do HC da Unicamp, dentro da rotina do serviço de atendimento da UER. Já as amostras de sangue coletadas foram analisadas pela equipe do Centro de Controle de Intoxicações (CCI) da Unicamp.

Os pacientes que chegaram inconscientes a UER e não tiveram condições de manifestar seu consentimento ou evoluíram para óbito tiveram os exames colhidos na rotina de atendimento, uma vez que isso já é padronizado no atendimento ao paciente traumatizado. As amostras só foram analisadas após algum familiar ou responsável terem autorizado a participação da pesquisa.

Caso o paciente viesse a ter, posteriormente, condições de consentimento, ele era abordado. Se houvesse recusa em participar da pesquisa, as amostras eram descartadas. Se evoluísse a óbito, eram contatados seus familiares responsáveis e, mediante consentimento desses, com assinatura do TCLE, era realizada a análise das amostras.

De acordo com os dados da pesquisa, a idade dos pacientes avaliados variou de 18 a 90 anos, sendo 36,3 anos a média de idade. Do total de 453 pacientes, 105 não responderam ao questionário por recusa, inconsciência ou sequelas incapacitantes. Os pacientes que se recusaram a responder o questionário, mas consentiram com a coleta das amostras, foram incluídos na pesquisa.

O quesito estado civil foi respondido por 347 pessoas. Dessas, 44,7% mantinham relacionamento estável e 63,2% declararam ter filhos. No quesito escolaridade, 12,5% estudaram até quatro anos, 34,3% entre quatro e oito anos e 53,3% declararam mais de oito anos de escolaridade. Com relação ao trabalho, 82,3% relataram que exerciam algum tipo de atividade profissional.

A pesquisa mostrou que o início do uso de substâncias psicoativas ocorre antes dos 18 anos de idade. O uso de SPA foi declarado por 115 pessoas e o de cocaína, crack ou canabinóides por 88 indivíduos antes dos 18 anos. O uso combinado (poliuso) de SPA foi declarado por 147 sujeitos. A dependência de mais de uma SPA foi respondida dos 10,6% dos entrevistados.

“O que chamou a atenção foram as altas taxas de positividade nas últimas 72 horas de uso das drogas antes do trauma ou violência. O uso de cocaína apareceu em quase 20% dos exames. Essa taxa é três vezes maior que a média nacional”, revelou Karina.

De acordo com a pesquisa, o uso declarado de SPA apresentou diferenças em relação ao gênero dos entrevistados. Houve proporção significativamente maior de homens entre os que declararam uso de cocaína, canabinóide e poliuso de SPA. Já o uso de benzodiazepinicos, por sua vez, foi declarado em maior proporção por mulheres.

Na análise comparativa da média de idade dos entrevistados, os usuários de canabinóides, cocaína e de mais de uma SPA eram mais jovens, enquanto aqueles que faziam uso de benzodiazepínicos, mais velhos.

TRAUMA E DROGAS

A associação entre o consumo de drogas (lícitas e ilícitas) e traumatismos é muito frequente nas unidades de emergência. O trauma é um ferimento ou lesão caracterizado por uma alteração estrutural ou desequilíbrio fisiológico, resultante da exposição aguda à energia mecânica, térmica, elétrica ou química, ou da ausência de algo essencial, como calor ou oxigênio.

A pesquisa constatou que todos os traumas decorrentes de espancamento e queda de altura, sofridos por mulheres, foram causados por companheiros, namorados ou cônjuges. Os indivíduos que sofreram queda da própria altura eram mais velhos que os demais.

Dentre os 249 pacientes atendidos na UER do HC da Unicamp que sofreram traumas de trânsito, 121 eram jovens e foram socorridos devido a acidente com motocicleta. 

“O uso de substância psicoativa está associado à gravidade maior ou menor do trauma. Quem tinha cocaína e álcool no sangue estava mais associado a trauma mais graves. A maioria era composta de homens jovens, com filho e emprego formal. Em decorrência do trauma, eles ficaram afastados do trabalho por pelo menos seis meses”, revelou.

De 179 pacientes participantes da pesquisa, 71 referiram já ter usado mais de uma SPA na vida e 17 preencheram critérios para a polidependência. Nos polidependentes, o atropelamento foi o mecanismo de trauma de trânsito mais comum. A análise laboratorial realizada em 238 pacientes mostrou predomínio de álcool (21,1%), seguido de cocaína (19,8) e crack (12%). 

Segundo Karina, no contexto social, o dependente faz uso de álcool, maconha e depois cocaína e o principal motivo para o uso de mais de uma droga é a associação entre elas para potencializar ou diminuir os efeitos.

“O uso combinado de cocaína e álcool forma uma substância chamada cocaetileno. Apesar de ser lesivo, ele potencializa o efeito e a intensidade da cocaína. Outra associação comum é cocaína com maconha ou crack com maconha, num cigarro chamado mesclado. A maconha tira o efeito desagradável do crack, que chamam de ‘nóia’”, explicou.

A psiquiatra da Unicamp diz que a importância da pesquisa resulta da possibilidade, a partir dos resultados apresentados, de avaliar com maior precisão os detalhes do binômio trauma/SPA e estabelecer estratégias de prevenção para ambas as questões, minimizando custos sociais e preservando o bem-estar e a qualidade de vida da população.

Ainda de acordo com a tese, a doença trauma é um problema de saúde pública, uma vez que afeta grande parcela da população em idade produtiva.

Além da mobilização de grandes quantias para o tratamento médico das vítimas, as consequências do trauma e suas sequelas causam prejuízos sociais e laborativos que oneram o Estado, devido a diversos encargos sociais demandados pelas vítimas e suas famílias. As consequências de um trauma grave são, muitas vezes, devastadoras, tanto para a vítima quanto para sua família, que arca com prejuízos emocionais e financeiros algumas vezes insuperáveis.

“O dependente ou usuário de drogas fica mais impulsivo e perde a capacidade de medir riscos. Às vezes, se envolve em situações de violência ou em acidentes na busca pela droga. É o que a gente vê na prática”, reforça a psiquiatra.

Publicação

Tese: “Detecção de substâncias psicoativas em pacientes admitidos por trauma em unidade de emergência: estudo de correlações”

Autora: Karina Diniz Oliveira

Orientadora: Renata C. Soares de Azevedo

Unidade: Faculdade de Ciências Médicas (FCM)

Texto: Edimilson Montalti | Foto: Antônio Scarpinetti | Edição de Imagem: Fábio Reis 
 

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